segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

Fim de ano


"O mundo é de Deus, mas Deus o aluga aos corajosos. As pessoas que o repetem descobrem um dia que a coragem de que fala é a ousadia de ver a vida com os olhos de um recém- chegado para que cada coisa aconteça sempre pela primeira e pela última vez.
Aos homens que têm a coragem de ver assim, Deus empresta seu mundo - como já tinha emprestado a sua sabedoria." - provérbio espanhol

Deixei espaço aqui enquanto não havia espaço na vida cotidiana. Muito aconteceu, muita intensidade e tudo isso está sendo processado e o resultado descubro pouco a pouco. Por isso não tenho muito a dizer, não assim por escrito...
Encerro o ano de 2008 feliz porque venci.Venci o medo de perder, venci os tombos, venci meu ego, venci muitas limitações, venci a paixão, venci a carência. Isso não significa que tudo isso ainda não faça parte de mim, muito pelo contrário, venci porque consegui olhar algumas de frente e agora seguimos em alguma espécie de acordo que tem tornado possível uma boa convivência.
Venci não por ser melhor, mas por conseguir ser bem mais autêntica. Não pela vaidade, mas pela espontaneidade. Essas são minhas principais vitórias.

Então, desejo a todos os poucos e bons que falam comigo por aqui um 2009 lúdico, onde possamos entender cada vez mais a brincadeira de se viver e entrar na roda, pular a corda e a amarelinha com a leveza de quem sabe que isso tudo vai passar.
Desejo que nossa criança ande sempre ao nosso lado, com aquele olhar curioso e puro de quem irradia e é contagiado pela plena felicidade de estar presente e de aceitar com humildade tudo o que a vida manda. Abrir os braços e coração para as novidades que nos esperam e preencher cada dia desse céu aberto com uma nova estrela.



Feliz Natal
Ano Feliz
Feliz pessoas
Feliz cidade

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Transcendendo a paixão (o ciclo se fecha)



"The whale doesn't sing because she has an answer. She sings because she has a song"

Ashes and Snow

Imersa na Natureza, retomo a consciência. Estar na Natureza me faz inteira e radiante e fecho um ciclo assim, precisava dela para transcender a paixão, euforia e ansiedade na mesma medida, gostoso e dolorido de sentir. Ansiosa por respostas, mergulho na escuridão de uma trilha onde não queria nada além do lúdico de adivinhar quais eram os ruídos. Sapo? Rã? Grilo? Cigarra?
Se na Natureza me fascina o mistério e é fácil, simples e natural me entregar a ele, porque não é assim na vida cotidiana? Se na Natureza eu sou valente e nenhuma supresa é negativa, onde isso fica escondido nessa cidade, nesses sentimentos, nesses padrões e condicionamentos?

Descubro que tudo que admiro nele, está em mim e que tudo que quero receber, tenho em abundância para dar. Toda alegria que a companhia dele me deu, podia experimentar sozinha e com outras pessoas. Ele me ensinou a amar mais, me ensinou o que já estava em mim, ele me despertou com a paixão. Agora descubro de forma mais fresca e viva que a paixão é muito melhor quando reconhecemos que ela nos pertence. O encantamento pelo outro está na potencialidade de encantarmos a vida e essa sim é a verdadeira magia: quando descobrimos o nosso encantamento, sentimos as mesmas borboletinhas no estômago que diante do ser pelo qual nos apaixonamos. 
O outro é um espelho, um filme, onde tudo de melhor e pior é refletido. Olhar o outro e ficar só na idealização é o labirinto. Olhar o outro e se ver através e além dele, a verdadeira liberdade.

Ele me ensinou a observar minha vaidade e descubro que quando estava mais eufórica não havia problemas, apenas um ego que já experimentou inflar e se sentir sólido pode perceber o vazio que isso tem perto de apenas ser. Assim comecei a valorizar a simplicidade e apreciar ainda mais a autenticidade e espontaneidade. Ele me ensinou a ter paciência, ele me ensinou a ter compaixão, olhar o outro em seu contexto. Ele me ensinou a perdoar a mim mesma por não saber, por ser tão iniciante com tanta experiência...

Na Natureza, sou feliz por ser iniciante sempre, pois só essa condição me permite ver tudo como se fosse a primeira vez. Isso é o divino e a presença que os espiritualistas dizem! Bom aprender e desaprender, sempre. Se na Natureza sou assim, que tal trazer isso para esse momento tão intenso?

Encontro essa pequena chave entre as montanhas: depois de ansiar demais, sofrer, querer fazer a coisa certa, descubro que tudo que quero ganhar já tenho. E tudo que tenho posso oferecer o quanto e quando quiser. E quanto mais ofereço, mais irradio. Quanto mais irradio, mais atraio. Quanto mais atraio, mais presença sinto. E quanto mais estou presente, mais vida pulsa dentro de mim.

Gente é para brilhar, como alguém já disse. Quer alguém? Brilhe! Quer ser amada? Ame! Quer vencer o medo? Faça! Quer descobrir? Observe! Mas é preciso olhar pra dentro e sentir com profundidade qual é a sua verdade.

Irradie o melhor que você tem dentro de si ao invés de se perguntar porque algumas coisas não acontecem contigo. Como nessa linda frase, cante não por um motivo externo, ou uma afirmação, uma aceitação, uma resposta. Cante e irradie porque você já tem uma linda canção dentro de si mesmo e há um mundo querendo ouvir. Assim é na Natureza e por isso ela é tão maravilhosa, cada planta e animal oferecem o que têm, o que é da sua natureza. E isso é harmonia.

Então, o paraíso está criado, as portas estão abertas.
Sem segredos, o ser humano é muito óbvio, maravilhosamente óbvio que é só abrir os olhos pra ver...



P.S: Dedico a Natureza maravilhosa de Aiuruoca.

terça-feira, 11 de novembro de 2008

Feast of love


"Há uma história sobre os deuses gregos. Eles estavam entediados, então inventaram o ser humano. Mas continuaram entediados, então inventaram o amor. Assim, não se entediaram mais. Então decidiram experimentar o amor.
E finalmente, inventaram o riso, para que pudessem suportá-lo".

Feast of Love (Banquete do Amor)

Assistir esse filme é como uma tarde gostosa num banco de parque. Me senti no lugar de Harry, observadora como sou, sorrindo e me envolvendo com as histórias alheias. E também no lugar de Bradley, querendo um pouco de felicidade, buscando adivinhar as necessidades alheias, agradar , amar, ser amado.
Para amar profundamente é preciso ter um coração valente. Coragem (coração + ação). Muito se aconselha sobre o amor, e o filme mostra isso, mas no fim das contas não nos resta outra alternativa senão pular, de preferência de olhos abertos. Não há outro jeito senão pular.
Quando você sabe que tudo pode dar errado, que você pode se ferir mas mesmo assim segue adiante, arriscando. É muito mais excitante que investir na bolsa, pular de pára quedas ou alta velocidade. É um grande risco, e no fim dessa nossa impermanente existência talvez seja o que mais tenha sentido, apesar da dor que acompanha essa finitude sempre iminente...

Sejam amorosas ou não a grande força do ser humano está na conexão das relações de troca, de compaixão, ajuda mútua. Isso é o que nos permite sonhar juntos, suportar o que não entendemos, celebrar o que nos alegra. A cadeia de amor que nos conecta, sem ser piegas, no sentido mais humano e divino dessa expressão é o que nos mantém flutuando serenamente nesse mar que é a vida...

Isso é o que esse filme me trouxe, abaixo as melhores frases:

Do Harry para o Bradley:

" Você tem que ficar alerta. Tudo que precisamos saber está bem a nossa frente . Nossas ilusões, nossas expectativas sobre as pessoas podem nos cegar. Mas sempre podemos saber o final pela forma como começa."

"Da próxima vez, salte! Mas de olhos abertos."


De Bradley para Harry

"- Há tanta coisa que eles não sabem, tanto sofrimento que nem podem imaginar
- Mesmo que soubessem, não mudaria nada
- Ela sabia e não fugiu, não se enfiou num buraco. Ela comprou uma casa, parou de evitar filhos e se casou com ele. Deus não nos odeia Harry, se odiasse não teria feito o nosso coração tão forte."







P.S: Dedico a todos os corações que amam e que querem amar de novo para que se tornem cada vez mais valentes.
E dedico a todos os grandes amigos e pessoas incríveis que formam uma rede iluminada ao meu redor.

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Sobre os espaços

My path is an open space - Tiffani H. Gyatso

"Meu pensamento tem a ver com os vazios da palavra, com a não comunicação. É que só a presença é mesmo capaz de encher o espaço, é um ser humano que está se expondo para outro e isso gera um calor imenso." Maurício Ianês

Tenho ouvido com muita frequência pessoas ditando regras de como se relacionar, sobre o comportamento de homens e mulheres, pistas pra chegar a conclusões que só interessam a razão e não fazem sentido algum em prática. A verdade é que é raro o encontro de duas pessoas. Fato. Não há porque ficar elocubrando em cima disso, como os tempos estão difíceis, as pessoas estranhas etc, etc, etc. São outros tempos, com muito mais pressa, informação e recursos de comunicação, que guardadas suas vantagens, só vieram colaborar ainda mais com a nossa ansiedade por controle.

Então se é raro, mas ainda assim (muito) possível, que no momento do encontro possamos estar motivados em oferecer o melhor e abertos 'a exposição. Abertura para receber o outro dentro do contexto dele, ao passo que nos abrimos e nos expomos 'a vontade em nossa própria pele. Acolhendo o outro, evitamos os julgamentos superficiais do senso comum e os joguinhos que fazemos mostrando o que não somos, dizendo o que não queríamos dizer ou silenciando algo bom. Estamos cada vez mais nos protegendo, guardando nossos sentimentos como tesouro precioso que apenas enferruja e vira pó. Expondo a si mesmo com consciência de nossas necessidades e sentimentos temos condições de oferecer o melhor e de receber o que quer que seja. Dessa forma estamos abertos a viver o que se apresenta e não apenas o que esperávamos e escolhemos a direção a partir disso.
Quando acontece o desencontro, e por consequência a frustração, acabamos criando verdades sobre homens e mulheres, crenças negativas que não levam a nada, a não ser afastar ainda mais o que é desafiador juntar.

Quando nos relacionamos é bom ficar atento ao outro e a si, respeitando os hiatos entre o que esperamos e o que podemos receber, o que damos e como aquilo é recebido pelo outro dentro do seu contexto. Se um ligou ou foi outro, não importa. Se um está mais machucado, não importa. O que importa é como prosseguimos a partir disso.
Assim, direcionar o olhar pra ver o que existe além de todo ruído. Não é fácil, insistimos em focar em orgulho, vaidade, perdas, ganhos e nos limitamos. Mas se soubermos ouvir o silêncio e a pausa, com certeza novas visões podem transformar as limitações em novas formas de agir.

Quando nos interessamos por alguém procuramos respostas, explicações, principalmente na frustração de uma expectativa. Talvez isso se minimize quando tomamos a responsabilidade pelo que projetamos e esperamos do outro, ao invés de simplesmente criticá-lo, reclamar, tentar impor uma outra atitude, mudar o que não nos pertence. Ao tomar a responsabilidade também é importante que sejamos dóceis conosco mesmos, senão faremos o mesmo processo de crítica e reclamações voltar para nós. Mas a grande vantagem é que nesse momento temos condições de transformar o que nos pertence, o que nos diz respeito olhando por outro ângulo, aquilo que causou desconforto no início.

É muito mais simples atrair, encantar com os espaços do que solicitar, buscar o tempo todo uma certeza ilusória. Para o amor ser real, ele precisa desses espaços vez por outra. Para se ter ao lado, é necessário que nossos silêncios nos atraiam.


Tudo que temos são os espaços entre nós. Esperando por surpresas fantásticas, acontece o suspiro sofrido da queda iminente de energia. Observando e deixando o espaço acontecer, há plenitude.
Não ter "nada" aos olhos do mundo é o que nos dá tudo que precisamos: estarmos juntos quando os espaços são preenchidos por nada além de nossa radiante presença.


"O espetacular nem sempre provoca reação, as pessoas assistem passivas aos filmes de Hollywood." Maurício Ianês



P.S: Não posso deixar de citar a performance do Maurício Ianês que começou hoje na Bienal . Ele nu no vazio do corredor, exposto a ter apenas o que recebesse do público para as suas necessidades. Suas idéias enriqueceram o meu dia.

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

Sobre a paixão



"Se você está apaixonada por mim
Nunca diga nunca
Não me fale assim
O amor é uma cachaça
É uma ameaça e coisa e tal
Paixão é terremoto, tsunami
É vendaval
Se você está apaixonada por mim
Nunca se apavore
Vá até o fim
O medo é o pior dos ancestrais
É hora de reler Vinícius de Moraes
Se você está apaixonada por mim
Nunca nos assuste
Tudo pode acontecer
Se você está apaixonada por mim
Tomara que eu (ainda) esteja apaixonado por você"

Jean Garfunkel


Tô no meio do vendaval. 24horas com energia que não se esgota nem dançando um cd inteiro de mp3, avuada, desfocada. Apaixonada. A vida tava gostosinha, com suas turbulências, mas quentinha, enfim. Veio esse susto e me tirou o controle, o conforto. Me deu suspiro, me deu energia, me deu êxtase... Me deu aconchego de que ainda existe um sentimento quase puro dentro de mim, ainda é possível viver algo que eu vivi com 14 anos, algo de que eu não me lembrava mais, que eu dizia a todo mundo que não existia mais.
Aparece você. Leve e tão confuso. Puro e tão cheio de malícia. Sensível e tão masculinamente racional. Apareceu você.
Tenho aprendido a exercitar a entrega, vulnerável, peito aberto. Primeiro pros momentos em que estamos em contato. Mas principalmente, e o mais difícil, pro desconhecido. Hoje eu entendo, hoje não quero ganhar mais, nem quero competir.
Tenho medo mas me sito valente pra superar meu orgulho. Estou confusa mas lúcida pra entender cada defesa e deslizar entre elas. Mas por causa de todas as frustrações e dores já vividas, posso estar mais a vontade com você e comigo.
Nós não temos absolutamente nada além de alguns momentos e algumas poucas palavras que talvez voem com o vendaval logo mais. E por isso é fascinante que possamos ter tudo, e um pouco assustador que isso possa inexistir a qualquer momento.

Estou embriagada, pouco sono e muitos sonhos. Uma menina que quer colocar vestido e sair de mãos dadas, quer ficar na ponta dos pés de novo e te dar mais um beijo. Quem sabe se você a levantar como fez aquele dia, e ela ficar suspensa abraçada em você?
Uma menininha que quer comer doce e brincar com seus cachorros. Só.

Mas a vida é irônica, de nada isso vale. Ela é muito sábia, meu tempo e meus desejos não têm a menor importância. Ela me diz pra aprender com o silêncio, não perder o silêncio anterior ao vendaval. Ela me diz pra aprender com os espaços, a não sofrer com eles.
Depois do vendaval ainda vai existir você, menina. Além do vendaval só existe você, menina.
Paixão é soluço.

Tudo o que eu queria agora é que você não tivesse medo do que não vê e não sabe.
E que eu não tivesse medo de tantas certezas que meu coração me diz...


“Um corpo estranho é introduzido na concha. Esta se protege contra o mesmo e, no decorrer do tempo, o envolve com uma camada de pérola.
O elemento perturbador transforma-se em beleza.”
Herrigel

domingo, 19 de outubro de 2008

Uma letra pra mim, um texto pra ele


"Por tanto amor

Por tanta emoção
A vida me fez assim
Doce ou atroz
Manso ou feroz
Eu caçador de mim

Preso a canções
Entregue a paixões
Que nunca tiveram fim
Vou me encontrar
Longe do meu lugar
Eu, caçador de mim

Nada a temer senão o correr da luta
Nada a fazer senão esquecer o medo
Abrir o peito a força, numa procura
Fugir às armadilhas da mata escura

Longe se vai
Sonhando demais
Mas onde se chega assim
Vou descobrir
O que me faz sentir
Eu, caçador de mim"

Milton Nascimento





P.S: Sem mais, dedico ao moço com nome de anjo por quem me apaixonei essa noite. Registro esse susto com um desejo de capturar, sem prender, pirilampos que se apagaram, borboletas que voaram enquanto ainda tenho comigo as sensações.

Oito horas de tudo de leve, surpreendente, eufórico, apaixonante e simples. Sentia falta de uma inocência maliciosa, mãos e abraços bem apertados, assim, sem grandes pretensões e máscaras. Doces momentos bem vividos. Doces como todos os doces de que você gosta, sweet sweet guy.


See you on any monday...


sábado, 11 de outubro de 2008

Ensaio sobre a visão


"Deixai-me limpo
O ar dos quartos
E liso
O branco das paredes
Deixai-me com as coisas
Fundadas no silêncio"

Sophia de Mello Breyner Andresen



Óculos. Primeiro (como sempre) relutei muito, meus olhos entre quadro paredes! Depois de um tempinho percebi que isso não era nada, a maior prisão está no meu olhar...
Cansaço pra enxergar bem de perto, a visão enxerga muito bem, mas não vê claro de perto. Segundo o oculista, a visão é o sentido que mais exige do cérebro. Segundo a acupuntura, a visão corresponde ao fígado (relacionado entre outras coisas com a emoção raiva). Segundo alguns bons, não estou percebendo muita coisa que está na minha cara, falta foco.
Minha mente me deixa com vertigem, minha raiva, tão domadinha, está como uma cobra deslizando dentro de mim aqui e ali. Não agüento mais pensar.
Pra isso tenho fechado mais os olhos, mas a maioria das vezes não adianta porque saio da realidade, é bom, mas paliativo. Na meditação, ajuda um pouco mais... mas de olhos abertos.
Vejo de longe o passado e tenho um certo ressentimento de não ter feito mais, bem mais do que fiz por conta de algumas precauções. É bom olhar assim de longe, pois se aproximar um pouco, a lente turva e eu caio pra um certo niilismo e culpa. Olhar o futuro já me leva ao hedonismo, possibilidade de mil loucuras, sem muito limite, do jeitinho que meu idealismo gosta.
De todos esses focos, só há um: AGORA. Agora é realidade, maybe sad but true. Daqui pra trás estão os passos dados, os tropeços, as alegrias, pra chegar aqui. Daqui pra frente, acertar a lente pode ser um ótimo começo pro inesperado, como um bom trekking. Agora é o real, cru, limite. Agora é sem dramas, simples, claro, como uma parede branca. Muito mais livre que qualquer passado ou futuro, ao contrário do que meus olhos estavam enxergando.

Ouço de alguém que é bom ir a fundo na dor, que a partir disso a gente se conhece melhor e é como um poder que ninguém te tira mais. Não um poder de orgulho , mas de vida humana. Passei boa parte da vida indo fundo na dor, não seria difícil fazer isso mais algumas vezes. Se me conheço melhor? Não sei. Sei que talvez tenha cultivado um vício maldito de ir até o limite. E de limite em limite, algumas cicatrizes em mim e nos outros e outras vezes algumas superações. Sim me sinto mais forte, mas hoje não é isso que valorizo, pra minha própria decepção...

Hoje, agora, aqui, de cabelos molhados, com um sorriso quase sereno e pouca roupa, quero paz.
Como disse essa mesma pessoa, não quero mais me machucar. Sentada aqui, com o corpo e a idade de hoje, sentindo por causa de um óculos o tempo passar, quero tranquilidade e as coisas mais banais e simples, e as mais difíceis de assumir. Quero ser amada sim, quero amar mais ainda, quero respirar e ser respiração. Quero tatear, canto por canto como no baile de ontem cheio de casais dançando. Tatear, sentir o cheiro, sentir o gosto. E quero ser tateada, fresta a fresta, até que não me reste um tipo de medo e orgulho sequer.

Estou cansada de ver, porque vejo demais, minha visão extraordinária me cansa. Não suporto mais ver a fraqueza dos outros e a minha própria com requintes de detalhes. Não suporto mais ver o melhor nas pessoas e tentar explicá-lo falando pro vazio. Quero cuidar da minha vida.

Assistam "Ensaio sobre a Cegueira". O livro já é belo porque Saramago tem beleza anyway. O filme é uma boa visão, aquilo que podemos ou não nos tornar numa cegueira branca. Mas a mais bela visão são as mulheres, incrível, nem Mark Ruffalo nem Gael conseguiram tirar minha atenção das mulheres. Aquela cena meio idílica talvez seja uma das boas utilidades de um par de olhos, ver a capacidade de amor, compaixão, sutileza existente no feminino. Mulheres despidas cuidando uma da outra, tive uma sensação forte e feliz do ser mulher.
A cena onde a mulher do médico flagra o sexo e numa cumplicidade surpreendente diz pra garota: "Eu vejo" e a abraça, é alguma coisa. Me identifiquei aqui e ali, eu fui capaz de algo parecido alguma vez, talvez da pior vez e essas são algumas das boas coisas de se olhar pra um filme e as vezes, pra trás...

De qualquer forma, com tantas palavras, o melhor está no silêncio. De tantas coisas, fico com o lençol branco. De tantas pessoas, o melhor está nos espaços entre nós. São esses espaços, vãos, vazios, que vão fazer a gente se encontrar pela vida, um dia.


P.S: Ah, olha que ironia, os óculos não foram mais necessários e descansam na gaveta, foi diagnosticado estresse temporário, depois que passou a visão voltou ao normal! (mas de vez em qdo eu brinco com os óculos, porque acho charmoso usar ;-)
Dedico as excelentes companhias que são gente, filmes, pernas, flores e gatos... (não necessariamente nessa ordem)

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

quando ele chegar


quero dopar meu ego
blefar com minha mente
atiçar meus sentidos

quando ele chegar

quero estar em carne viva
sem saída
sem argumentos

quando ele chegar

quero desejar menos
me dissolver
me diluir

quando ele chegar

quero ser cinza após fogo
ar após água
poeira após terra

quando ele chegar

quero desesperadamente
não ter
não pretender

quando ele chegar...

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

Anunciação


Tudo começou com uma falta de ar, peito dolorido, desespero, limite de situações que achava que devia e podia suportar. Querendo resolver sozinha, fui além do que precisava e isso só me trouxe a lição do tamanho da ignorância e não da força.
Eis que a roda gira, gira e vai pra cima de novo... Como sempre, de onde eu menos espero, vem o ombro, a mão, a clareza instantânea. Quando eu menos esperava veio tudo que uma pessoa pode precisar pra colocar a cabeça fora d' água de novo.
Segundo um terapeuta amigo, quando acontecem coisas que a gente menos espera, seja pra bem ou pra mal, normalmente nossa visão estava distorcida, pois tudo guarda em si um mundo de potencialidades que estão totalmente acessíveis aos nossos olhos.

Numa conversa com uma amiga, recebi um chacoalhão que me fez acordar do meu orgulho. Sim, meu orgulho de pedir ajuda, de ficar muito vulnerável, sendo que isso era o que estava me angustiando! Como um portal mágico, no momento em que eu retomei o fôlego e decidi agir apesar do orgulho, a névoa se dissolveu.
O mais importante foi a lição de valor da solidariedade que recebi dos braços abertos quando o fundo do poço parecia ter chegado. Não foi o prático e concreto simplesmente, mas o significado da atitude. Pessoas que estão tão distantes atualmente e com problemas muito mais graves foram capazes de parar, olhar por mim e ver o que eu não conseguia. O que fizeram foi como me dar banho, trocar minha roupa, e me colocar na cama pra dormir depois de um tempo sem muito rumo. Nem sei como retribuir, mas o mais valioso foi o quanto isso me inspirou a fazê-lo por outras pessoas. A partir desse momento, comecei a observar um tanto mais o que podia fazer por alguém. Queria que outras pessoas sentissem o acolhimento e alegria que eu havia sentido. Talvez tenha conseguido fazer um pouquinho, e agora me basta sorrir por dentro e compartilhar algumas coisas aqui.

Quando já tinha encarnado a gata borralheira, consegui ir contente a festa esperada. Eu adoro Alceu Valença, não acreditei quando tocou "Anunciação". Do nada apareceu um moço e me tirou pra dançar sem pedir licença. "Eu não sei dançar", eu disse. "Eu sei, fica aqui", ele disse. Ele dançava tão leve que tenho certeza que a gente flutuou em meio a multidão. Acabou a música e a gente continuou abraçado, numa valsinha. Ele parou, segurou nos meus ombros e me olhou nos olhos. Ele viu mel nos olhos que eu vejo todo dia numa cor comum, ele viu mel e sorriu.
O que aconteceu foi como aquele baile de cidadezinha pequena em que a moça distraída nem vê o moço chegar. Depois vira brinquedo nos braços dele... O momento mais gostoso e leve de um dia que tinha começado tão estranho.

Assisto o filme "Once" (Apenas uma vez). História de um cantor de rua e uma garota que vendia flores que se conhecem, conectam, compartilham idéias, sonhos, companhia, e transformam profundamente suas vidas. Com as sutileza, naturalidade e leveza de um bom encontro, um filme simples e altamente inspirador. Caiu como uma luva para meu sentimento de que há tantas coisas invisíveis e belas aos nossos olhos e o quanto é precioso quando conseguimos, por um instante ver além do que é aparente. Mesmo que seja o lado mais escuro, conectar com o lado luminoso é a grande mágica, assim é possível a troca, que faz possível compartilhar, uma corrente está formada, a felicidade acontece.

Isso tudo pra dizer que me convenço cada vez mais sobre o valor das pequenas coisas. A grande luz que existe nos pequenos feitos, nos pequenos passos. Parece bobagem, mas na prática é muito intenso o que surge quando a gente consegue olhar para esses poucos momentos onde algo floresce, tem um outro cheiro, brilho, sabor.
Uma coisa curiosa é que ultimamente não me atraem tanto esses grandes feitos que as pessoas gostam de contar, grandes conquistas de alguns grandes egos. A simplicidade me atrai mais e mais, a palavra que sai da sabedoria daquele que não estudou, o carinho da mãe que vai ao supermercado pra você sabendo exatamente o que te falta, o zelo de alguém que faz o que você nem pediu e o faz além dela mesma. Flores colocadas num arranjo improvisado na sua cabeceira, só pra você acordar melhor.
Chego a conclusão que o compartilhar é o sentido da vida. Não somos nada, se depois não compartilhamos o que temos. Seja o pão, o afeto, a dança, o ombro, a dica.

Num show muito bom com apenas alguns no palco, olho ao redor e observo todas aquelas pessoas conectadas pela música, se divertindo em paz. Não há "cada um", mas uma multidão.
Penso: somos espelhos dessas estrelas no céu essa noite...

"Tu vens, tu vens
Eu já escuto os teus sinais"

Anunciação - Alceu Valença





P.S: Dedicado a todas essas pessoas que fazem a vida do outro brilhar mais.

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

Um pedaço de ar


"Se existe um Deus, porque as pessoas perdem tanto tempo temendo, amando, reverenciando? Se esse Deus existe imagino que a única coisa que ele deseje, já que nos atirou no mundo, é que a gente viva. Vivam e vejam como é. Mas como essas pessoas podem viver enquanto são observadoras de Deus?" Hugo

Anda invisível entre as pessoas, o all star branco pisa o chão e flutua como se ela não existisse. Os olhos ficam úmidos a qualquer brilho. Os olhos ficam úmidos na profunda escuridão.
Ela não consegue enxergar o que dizem, tem tido muita vertigem. Sozinha ela vê bem claro e aí paira.Não sabe explicar como o que chega antes é o que as pessoas querem esconder.
Com um super poder sem utilidade alguma, ela circula. Ela vê como num holograma o que querem esconder. É triste, pois solitário. É lindo, pois secreto. Na maioria das vezes um fardo esse olhar, o peso constante do vagar...

Não faz sentido a cidade. Não faz sentido o que possui. Não faz sentido a busca incessante esses anos todos. O preço tem sido alto e muito bem pago. Mas ela não sabe se quer ir além disso.
Mãos cheias de sangue que ela lava com pano úmido. Mãos que querem outra utilidade além da luta. Como podem essas mesmas mãos manipularem coisas tão delicadas?
Existe algum outro lugar onde possa apenas ser??

Corpo pronto pra usar a força, mas ela tem se recusado.
Corpo solto com o toque dele. Seu corpo nas mãos dele é resignificado. Sua nuca com seu cheiro fundido no instante da intersecção, não é mais nuca, é um pedaço de ar.

Tem ocorrido que o ser humano é algo muito bobo quando não é.
O ser humano só tem sentido junto.

E ela quer ser um pedaço de ar.

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

Músicas para amar mais





Esse post foi inspirado no "11 canções para amar mais" do blog Não2Não1, idéia do Gustavo Gitti e o Ian Black do Enloucrescendo. Eles fizeram uma lista de músicas em 11 categorias para representar o percurso de um casal.
Compartilho com vocês algumas canções em categorias significativas pra mim, afinal, um relacionamento é sempre uma mistura da transpiração do passado com a respiração do presente e a música tem o poder de mexer com nossas emoções, marcando muitos momentos da vida.



1. Música para primeiro encontro - "So fine"- Guns'n Roses
“How could she look so good (So good)/How could she be so fine/How could it be she might be mine?”- Resumidamente, não é isso que a gente imagina antes do primeiro encontro Ah se ele for meu, ao menos por hoje...

O melhor do primeiro encontro é o suspense. O mundo pára, friozinho na barriga, preparativos, ansiedade. Melhor que isso só os suspiros depois, pois quando o primeiro encontro flui, é de deixar suspirando por uns bons dias... Essa música tem uma melodia fluida, gostosa, letra romântica e sensual, bons ingredientes pra encontrar a pessoa que a gente queria tanto.


2. Música para dar o passo - "Tão diferente" - Nando Reis
“Estou com vontade de te dizer agora/Agora que você está na minha frente/
O que passa no meu coração agora/Agora que você me fez tão diferente” - Despir o orgulho e as dúvidas e dar espaço pra coragem, deixar o coração agir.

Passados alguns encontros, começamos a incluir aquela pessoa mais e mais na nossa vida. É sempre muito sutil esse momento e acontece uma hora em que a gente pontua de uma forma mais forte que quer ter a pessoa por perto, de verdade. Pra mim essa música é a melhor forma: destemida, aberta, simples, sincera. Começar assim é uma dádiva e tanto.
"Mas eu estou aqui/Sou esse ar/Que você vai respirar"- arrebatador!


3. Música para se declarar - "Absolute beginners" - David Bowie
“As long as you're still smiling/There's nothing more I need/I absolutely love you
But we're absolute beginners/But if my love is your love/We're certain to succeed”-

Essa é pra se declarar sempre. Diz aquilo que é tão simples de ver quando nos declaramos pra alguém com uma lucidez que não parece nossa e uma certeza que só um coração aberto pode ter. Sou iniciante como você, mas vambora? Não vai ser fácil, mas vambora? Simples como um sorriso bastar, lindo!


4. Música para striptease - "Sweet Jane "- Cowboy Junkies
“Heavenly wine and roses/Seem to whisper to me, when you smile”- Uma das melhores coisas em se despir pra alguém é o olhar do outro sutilmente falando o tempo todo com você.

O ritmo dessa música chega a ser místico, tempo lento meio angelical, vocal sexy numa dose saborosa de malícia: nada explícito demais, em contrapontos perfeitos pra um strip de classe.


5. Fuck music - "Touch me" – The Doors
“Come on, come on/Now, touch me, babe/Can't you see that I am not afraid?/ Now, I'm gonna love you/'Til the heaven stops the rain./I'm gonna love you/'Til the stars fall from the sky/For you and I.” - Intensidade pra durar um dia inteiro

O ritmo dessa música já é um convite pra se tocar. Não há como resistir, tem o ritmo de uma boa noite de sexo, intensa, suave, intensa, suave. Pra se tocar sem medo e pudores sem esquecer da boa poesia que é receber o corpo do outro nesse momento de máxima conexão, que faz estrelas cairem do céu.


6. Pós fuck - "Angel" - Jimmy Hendrix
“And my angel she said unto me/Today is the day for you to rise/Take my hand, you're gonna be my man/You're gonna rise"- A conexão depois do sexo continua forte e tudo que você quer é sair de mãos dadas com ele.

Imagine terminar uma noite maravilhosa de sexo dizendo tudo isso com o corpo, energia e deixar o Hendrix dizer com as palavras? É o que precisa ser mantido depois, pra continuar cada vez melhor e mais consistente.


7. Amor de casados - " A fila"- Nando Reis
“A dúzia o maço um bocado/Um pedaço e um buquê/Avisa/Que eu procuro o mais barato pra sobrar/O dinheiro que eu preciso pra comprar/Muitas flores pra você” - A sutileza das coisas mais cotidianas e comuns feitas a dois que se transformam em pequenos milagres no dia-a-dia.

Sempre digo que fazer feira juntos é umas das maiores provas de cumplicidade em um casal, um ritual de paciência e companheirismo, além de um ótimo programa para os sentidos. Quando eu era casada a gente sempre guardava uma graninha pra comprar algo que o outro gostava no final. Pra mim eram flores, pra ele, jaboticaba. São essas simplicidades que dão um brilho profundo pra uma relação quando se tem uma intimidade muito grande com o outro.


8. Música para estrada - "Take my hand" – Dido
“Touch my skin, and tell me what you're thinking./Take my hand, and show me where we're going/ What you feel is what I feel for you?/Take my hand, and if I'm lying to you/I'll always be alone, if I'm lying to you”

Essa música tem que ser ouvida em velocidade, com o vidro aberto, alta. Dá uma super sensação de liberdade e desperta muita energia. O melhor é chegar ao destino e praticar o que a letra diz. Deliciosa!


9. "The" One night stand - Blood sugar sex magic - Red Hot Chili Peppers
“Every woman/Has a piece of Aphrodite/Copulate to create/A state of sexual light”

Essa letra é ao mesmo tempo tão sacana e poética, coloca o o casal como deuses, tratando o momento do sexo com referências muito bonitas. Se é pra ser só aquela noite, que que seja mágico como um mito, com aquele brilho fugaz no tempo e duradouro no simbolismo.


10. Cantar bem alto sempre - "Tão Bem"- Lulu Santos
“Ela me faz tão bem/Ela me faz tão bem/Que eu também quero fazer isso por ela!”- Sentir isso uma vez por dia numa relação é como beber um litro de água.

Essa música tem que ser cantada ao menos uma vez por dia quando estamos apaixonados. Quem não quer alguém que te faça bem e que se possa fazer isso de volta? Pra alimentar o amor lembrando do que um relacionamento realmente se trata.


11. Pedir desculpas - "Por onde andei" - Nando Reis
“Amor eu sinto a sua falta/E a faltaé a morte da esperança/Como um dia/
Que roubaram o seu carro/Deixou uma lembrança/Que a vida é mesmo/Coisa muito frágil/Uma bobagem/Uma irrelevância/Diante da eternidade/Do amor de quem se ama" -
Ah, a impermanência ...

Essa música dói quando a mancada foi nossa e é maravilhosa de receber como desculpas.
Me lembra todas as bobagens que a gente faz num relacionamento, as mancadas mais óbvias, as cegueiras mais idiotas que por pouco põem em risco a relação. Se a desculpa é aceita é bom ouvir vez por outra pra lembrar de ter mais atenção e presença, senão, é bom ouvir pra curar a ferida, afinal, muitos bondes a gente perde mesmo mas muitos outros passam de novo.


12. Música para reatar – "Sweet Baby" – Macy Gray
“Sweet sweet baby/life is crazy/but there's one thing/I am sure of/I'm your lady/
always baby/and I´ll love you now and ever”

Depois do coração estraçalhado você poder dizer que ele é seu homem e você é sua mulher, é como a surpresa do primeiro encontro com outro sabor. A vida é muito louca mesmo, a gente sofre desolado e de repente os dois percebem que foram feitos um pro outro de novo (sem importar que isso não dure pra sempre rs). Se decidem encarar, é uma reafirmação depois de tudo de ruim que passou e isso é precioso. Aproveite pra repousar nesse momento.


13. Música pra momentos difíceis (seja com ele ou não) – "Why worry" – Dire Straits
“But baby just when this world seems mean and cold/Our love comes shining red and gold/And all the rest is by the way”- As nuvens ficam bem mais lentas no céu, tudo brilha de novo.

Essa música me lembra colo, coisa gostosa de receber quando o mundo parece desabar e a coisa mais simples que pode ser oferecida nos momentos difíceis. Receber cafuné no colo faz tudo ficar bem, você não está sozinho. Não é sua mãe, seu pai nem seu amigo dizendo, é seu amor, e isso faz toda diferença.


14. Para a dor do rompimento -"Quem vai dizer tchau?" - Nando Reis
"Quando aconteceu?/Não sei!/E quando foi que eu/Deixei de te amar?/Quando a luz do poste/Não acendeu/Quando a sorte/Não mais soube ganhar/…Guardar lá dentro amor não impede/Que ele empedre/Mesmo crendo-se infinito/Tornar um amor real/É expulsá-lo de você/Pra que ele possa ser de alguém...”

Foda isso. A dor da solidão a dois com suas indiferenças e barreiras, a luz que apaga as vezes pra um e não pro outro, a sorte que acaba, sentido que se perde junto com o chão, quem nunca viveu isso? Tudo pode mudar num instante e é cruel quando não queríamos que acontecesse.
Mas é muito bom pra lembrar, numa próxima, que o amor existe pra se oferecer, pois dói muito mais quando a gente começa a economizá-lo porque está machucado e orgulhoso.
Essa frase é libertadora quando se torna uma energia que se move dentro e leva pra ação: "Tornar um amor real é expulsá-lo de você pra que ele possa ser de alguém".
Acho que é isso que faz a gente querer seguir em frente.


15. Para todas as situações num relacionamento maduro - "Secret Smile" - Semisonic
"When you are flying around and around the world/And I'm lying all lonely/I know there's something sacred and free reserved/And received by me only" - Existe maior cumplicidade que essa, os segredos de um casal?

Essa música pode ser pra viajar, pro strip, pós - sexo, pra se declarar, pra dançar junto... Pra mim ela traduz uma essência muito forte do que é relacionar-se, a lealdade e cumplicidade que uma relação consistente tem. Os nossos sagrados segredos, que guardamos e oferecemos em momentos indescritíveis compartilhados a dois que fazem de um casal, "o" casal.
Pra chegar lá muita lucidez e maturidade, afinal, você sentir uma segurança leve de que há algo entre vocês que é só de vocês no matter what, é como chegar no topo da montanha com a vantagem de não ter que descer tão cedo. Tudo é leve, o êxtase se mantém e a visão se expande a 360 graus.


domingo, 7 de setembro de 2008

Coração Desperto



“Quando acordamos desse modo o nosso coração, descobrimos com surpresa que ele está vazio. Temos a impressão de olhar o espaço sideral. O que somos nós? Quem somos nós? Onde está nosso coração? Se olharmos com atenção, nada veremos de tangível ou sólido. Claro, é possível encontrar algo muito sólido, se tivermos rancor contra alguém ou se estivermos possessivamente apaixonados. Esse, porém, não é um coração desperto. Se procuramos o coração desperto, se colocamos a mão no peito para senti-lo, nada encontramos – a não ser ternura. Sentimo-nos doloridos e ternos, e se abrimos os olhos para o mundo, reconhecemos em nós uma profunda tristeza. Uma tristeza que não vem de termos sido maltratados. Não estamos tristes porque nos insultaram ou porque nos consideramos pobres. Não. Essa experiência de tristeza é incondicional. Ela se manifesta porque nosso coração está absolutamente exposto. Nenhuma pele ou tecido o recobre – é pura carne viva. Mesmo que nele pousasse apenas um mosquito, nós nos sentiríamos terrivelmente tocados. Nossa experiência é crua; nossa experiência é terna e absolutamente pessoal.O autêntico coração da tristeza provém da sensação de que o nosso inexistente coração está repleto. Estaríamos prontos para derramar o sangue desse coração, prontos para oferecê-lo aos outros. Para um guerreiro, é a experiência do coração triste e terno que dá origem ao destemor, à coragem. Convencionalmente “ser destemido” significa não ter medo, significa revidar um murro, dar o troco. Aqui, entretanto, não estamos falando do destemor das brigas de rua. O verdadeiro destemor é produto da ternura e sobrevém quando deixamos o mundo roçar nosso coração, nosso belo e despido coração. Estamos dispostos a nos abrir, sem resistência ou timidez, e a encarar o mundo. Estamos dispostos a compartilhar nosso coração.”

Chögyam Trungpa, Shambala: A Trilha Sagrada do Guerreiro, Editora Cultrix.


sábado, 30 de agosto de 2008

absolute beginner



"I've nothing much to offer
There's nothing much to take
I'm an absolute beginner
And I'm absolutely sane
As long as we're together
The rest can go to hell
I absolutely love you
But we're absolute beginners
With eyes completely open
But nervous all the same

If our love song
Could fly over mountains
Could laugh at the ocean
Just like the films
There's no reason
To feel all the hard times
To lay down the hard lines
It's absolutely true

Nothing much could happen
Nothing we can't shake
Oh we're absolute beginners
With nothing much at stake
As long as you're still smiling
There's nothing more I need
I absolutely love you
But we're absolute beginners
But if my love is your love
We're certain to succeed"

Absolute beginners - David Bowie


Esse post é pra essa música. Amo essa música e ela me pegou de surpresa no meio de pensamentos, desviei o caminho só pra ouvi-la. Ela já fez parte de inúmeras fases da minha vida e hoje foi mais uma. Música é um troço muito bom e elas têm caído macias na hora exata.
Remoendo umas coisas que queria entender, delícia repousar em ser absolutamente iniciante. Pra quê querer acertar tanto? Somos absolutamente iniciantes!
Depois de me questionar não corresponder alguns sentimentos, fico apaixonada só de ouvir essa música. Delícia estar apaixonada sem direção. Não há outra palavra, é delícia porque salivo só de sentir...







P.S: Não posso deixar de dedicar ao moço que pegou muito na minha mão (tinha esquecido como é bom esse negócio de mão!), deu beijo no rosto e dançou comigo. Coisa boa moço, esse seu jeito de me levar, fica triste não, menina as vezes é passarinho fora da gaiola, gosta de voar...

quarta-feira, 27 de agosto de 2008

Amazing


"It's Amazing
With the blink of an eye you finally see the light
It's Amazing
When the moment arrives that you know you'll be
alright
It's Amazing." Amazing- Aerosmith

Aquela que morreu, não consigo mais conectar. Eu tento, eu choro, eu faço força pra lembrar, mas me escapa. A que nasceu, engatinha. Muitas vezes boba, sensível, com olhar infantil. Outras falando "gugu dadá" no meio de um monte de adultos imersos em seus mundos que ela não entende tão bem agora.
Me sinto confusa quando não sou mais o que era. Quando minhas opiniões não são tão rígidas como antes e olha eu era vista como uma pessoa de opinião formada!
Minha rebeldia não é mais falar o que eu penso a todo momento, fazendo o que me dá na telha. Hoje é parar pra olhar o nascer do sol em plena Marginal quando volto do trabalho, é pegar uma estrada só para ouvir um cd novo, andar a pé quarteirões que podiam ser feitos de carro, entrar em diversas "tribos" e falar com gente que nunca vi antes.
Não sou mais aquela que dá conselhos inflamados de emoção, nem aquela que os pede a Deus e ao mundo... Minhas falas têm incluido mais um "pode ser", uma pausa. Tenho suportado minhas angústias de forma mais solitária e dolorida, mas parece mais natural, fluida, feliz. Minha ansiedade é uma ânsia de viver o que me é claro agora, como uma pessoa que acorda de um coma e sai pela vida como um gatinho num campo cheio de borboletas.

Hoje o que mais me alegra são as simples oportunidades de me relacionar de forma mais fresca e leve com o mundo. Algumas vezes olhando nos olhos dos medos, flertando com os limites, outras ouvindo e aquietando quando a voz vai atrapalhar e nas mais difíceis, praticando aceitação. E na maioria das vezes isso é fruto de muita queda, de diversas alturas, sem pára quedas.
Alguém me perguntou se as transformações que me aconteceram foram por medo de repetir erros. As transformações mais genuínas que me acontecem são pelas coisas que compreendo realmente não valerem a pena e não fazerem mais sentido. Essa compreensão, pelo contrário, encoraja a andar pra frente, porque na prática é preciso muita coragem quando a sabedoria ainda é como vagalumes que piscam na escuridão.

Nesses momentos entendo na carne o poder do olhar e o tal nascimento que ele dá, tão falado no Budismo. O olhar modifica tudo, abrindo portais ou criando labirintos.

Então, tenho buscando amplitude. Olhares nos fazem nascer, outros são como a morte. Mas no final das contas o que importa são as escolhas que fazemos assim que abrimos os olhos. Uma mágica, um milagre, uma liberdade, são essas possibilidades de escolha num piscar de olhos.


"And I'm sayin' a prayer for the desperate hearts tonight"

sábado, 2 de agosto de 2008

O silêncio que não é , um turbilhão de calmaria


"Ah girassol, farto do tempo
Os passos do sol a contar,
O clima dourado e ameno a buscar
Em que a jornada do viajante chega a seu termo,
Quando a juventude que com o desejo se esvaiu,
E a pálida virgem que de neve se cobriu,
Hão de ansiar e de seus túmulos ressurgir
Para onde meu girassol deseja ir!" 
William Blake

Pausa.
Em tempos de muitos desejos, o silêncio é bem vindo. Antes de ceder ao impulso de mais e mais ação, contraio, interrompo o movimento que muito provavelmente levaria a desdobramentos conhecidos. Experimento o que é esse silêncio e o que virá disso.

Respiro.

Para esses momentos filmes são excelente companhia. Atualmente me interesso por epopéias, figuras históricas e expedições na Natureza, como por exemplo "Alexandre, o Grande" e "No ar rarefeito".

Tenho muito interesse por figuras inovadoras, vanguardistas, revolucionárias, guerreiras, não sei bem a razão. Mas dessa vez, as aventuras fantásticas desses filmes não me tocaram como antes. Não que deixe de admirar esses desbravadores e suas viagens, mas talvez por estar um pouco mais atenta ao que os move, não mexeram tanto comigo...
A saga de Alexandre comprova um monte de coisas que aprendo bem aos poucos com o Budismo e com a vida, por exemplo: quando o foco é a competição não relaxa-se e por mais prazeres e conquistas que obtenha-se, sempre busca-se mais e mais, incansavelmente... Sob orgulho, não há espaço para o outro, ele é apenas mais uma referência para afirmação do que se é ou não,  prestando serviço  apenas a um ego frágil... Alexandre era extremamente carismático, corajoso, mas perdeu de vista a realidade quando a única coisa que via a frente eram suas buscas. Como ele disse: "Cada terra, cada fronteira que cruzo é o fim de mais uma ilusão. Sinto que a morte será a última. Mas continuo avançando para achar esse lar".

Admiro quem quer vencer seus medos e principalmente a si mesmo, mas tenho pensado nas diferentes maneiras de fazê-lo que não sejam apenas grandiosas. O quanto vencemos a nós mesmos quando nos relacionamos realmente com os outros, de forma que haja troca e parceira. Cada vez que incluimos um outro no nosso mundo, nos nossos desejos, nos nossos sonhos parece que um destemor naturalmente  surge e outras perspectivas se abrem para além do simples controle...
"Os sonhadores nos esgotam, precisam morrer antes que nos matem com seus malditos sonhos" - do filme Alexander. "Estamos mais sós quando estamos no mito." A solidão do mito no topo de um ideal talvez seja a fonte da sua tragédia. O herói não é menos solitário mas talvez a diferença principal esteja no fato de que este volte para contar sobre sua jornada aos demais e nesse compartilhar, essa solidão tenha um outro sentido, bem mais profundo. O desejo pelo mito, o ideal e a falta de medo para muitas coisas pode ser perigosa, não necessariamente uma coragem, mas uma certa arrogância ou simplesmente falta de aceitação dos limites.

Não deixo de acreditar na frase de Virgílio de que a sorte favorece os audazes. Será que também não é ousado arriscar um monte de "verdades" para viver uma vida mais consciente e simples? Não é necessário ser ousado para andar contra a corrente desse monte de valores que não fazem mais sentido e se render ao que seja mais lúcido mesmo que desconstrutor, nem que seja por breves momentos?
A ousadia parece estar mais ligada 'a simplicidade do que me ocorria antes.
E a liberdade 'a aceitação de limites do que eu jamais havia percebido...

No Everest quanto mais se avança em direção ao cume, mais o ar se torna rarefeito e menos tempo é possível permanecer para desfrutar do êxtase. Não é bela essa metáfora? Então penso, o ar é rarefeito no auge, os êxtases não duram mais do que devem durar sua natureza de êxtase, assim como todas as emoções. Seria maldição e inveja dos deuses como acreditavam os gregos? Ou uma insistência humana em alcançar o que não se alcança, vencer o que se deveria reverenciar, tocar o que não é tátil, fazer durar o que é e será efêmero, porque essa é sua natureza?


"Sem sair da porta,

conhece-se o mundo;

Sem espiar pela janela,

vê-se o Caminho do céu.

Mais longe a sua saída,

menor o seu conhecimento.

Portanto, o Sábio

não caminha

e mesmo assim conhece;

Não olha

e mesmo assim nomeia;

Não age e mesmo assim conclui."

TAO-TE-CHING
Aforismo 47






Um gato e um blues



Fase de experimentar os grandes opostos. O que é temido e atrai, o que prevalece a razão e o que o coração fala mais alto. Minha noção de "eu" nisso tudo se dissolve tão rápida e levemente que chego a me confundir sobre o que faz parte de mim, quem eu realmente sou e se essa noção existe de verdade.
Muitas vezes me pego falando demais, me exponho, sou mais ação, fogo. Outras silencio, recolho, guardo, sou água. Percebo o quão humano e fascinantes são esses pólos mas a busca por um "equilíbrio", um caminho entre eles permanece, embora na maioria das vezes ele não seja claro.

Tenho percebido mais a simplicidade que existe nas coisas, o que é viver sem respostas, o que é agir sem programar tanto quando respiro e contemplo. Tenho percebido que a entrega é muito mais que se dar, é um permitir-se entrar no universo do outro como numa sala escura, tateando com sorriso no rosto. Isso aprendo olhando nos olhos e ouvindo. Tenho descoberto que muitas vezes falar com um olhar é muito mais significativo, aprendo isso nos espaços entre a energia e a ação.
Noto mais liberdade quando vive-se mais as experiências que os rótulos, instituições, identidades. Os sentimentos que surgem são tão profundos que uma explosão parece eminente. Sinto-me expandindo a medida em que calo, meus desejos cada vez mais fortes a medida em que contenho e a despretensão e a sutileza definitivamente têm sido aspectos altamente sedutores pra mim.
Quero poder transformar esse montão de preconceitos, barreiras e frescuras antigos me dando novas chances, buscando essas chances nos corredores, nas curvas, nas estradas. Se as portas estiverem fechadas não insisto mais, se houver uma fresta entro como um gatinho, se estiverem abertas, me entrego.

Dentro disso tudo, quero falar de você.
Te ver tocar, observar seus movimentos no ritmo, conectar com a sua batida fluida e tudo o que não era explícito. Você lembrar de coisas que falei anos atrás, do meu jeito como quem me conhece mesmo ... Olhar você, entrar no seu mundo, compartilhar os sonhos, ver seus olhos brilharem quando falava do que te fazia feliz.
"Meu dom...Ah, meu dom é o samba". Lindo isso.
E depois de tagarelar, você me observar apesar de toda sua dificuldade de atenção, uma pergunta profunda... Aquele olhar, um misto de atenção, carinho e malícia foi decisivo.

Portanto, esse post é pra você, aquariano de olhos verdes e mãos leves que vive de ritmo.

"Sister, you've been on my mind
Sister, we're two of a kind
So sister, I'm keepin' my eyes on you
I betcha think
I don't know nothin'
But singin' the blues
Oh sister, have I got news for you
I'm somethin'
I hope you think
that you're somethin' too

Oh, Scufflin',
I been up that lonesome road
And I seen a lot of suns goin' down
Oh, but trust me
No low life's gonna run me around

So let me tell you somethin' sister
Remember your name
No twister,
gonna steal your stuff away
My sister
Sho'ain't got a whole lot of time
So shake your shimmy,
Sister
'Cause honey
this 'shug is feelin' fine"

Miss Celie's blues - Quincy Jones

domingo, 27 de julho de 2008

riders on the storm

"Riders on the storm,
Riders on the storm,

into this house we're born,
into this world we're thrown
like a dog without a bone,
an actor out alone,

riders on the storm

There's a killer on the road
His brain is squirming like a toad
Take a long holiday
Let your children play
If you give this man a ride
Sweet family will die
Killer on the road



Girl you gotta love your man
Girl you gotta love your man
Take him by the hand
Make him understand
The world on you depends
Or life will never end
Gotta love your man"

The Doors

sábado, 19 de julho de 2008

Na Natureza selvagem



"E também sei como é importante na vida não necessariamente ser forte
mas sentir-se forte
Confrontar-se ao menos uma vez
Achar-se ao menos uma vez na mais antiga condição humana
Enfrentar a pedra surda e cega a sós sem outra ajuda além das próprias mãos e cabeça"

Into the wild

O filme "Na natureza selvagem" mexeu muito comigo. Não ia escrever sobre ele porque as facetas são tantas que me senti inapta para desenvolver em palavras. Então ouso escrever com material volátil que são minhas sensações e um tanto mais refinado que são minhas experiências.

Entendo as sombra de Chris. Entendo a rebeldia, a raiva, a dor que ele carrega e os extremos a que ele se propõe. Por ter vivenciado algumas boas vezes na vida a importância da ousadia, entendo cada lágrima da primeira vez que ele viu animais no Alasca ou quando cravou em madeira sua história. Por entender e me conectar com elas, foi possível olhar o filme além da empolgação quase "adolescente" de queimar dinheiro ou sair pelo mundo, pois o que move essa história está além das aventuras radicais e fascinates que ela contém.

Quando nos falta alguma coisa parece que na mesma medida somos preenchidos por aquilo, mas buscamos a falta e não o contato com o que já temos. Na medida em que Chris segue sua jornada, o que realmente o nutre não é o apenas o que surge em sua solidão, mas principalmente o que ele compartilha. Até porque só é possível compartilhar de dentro de uma profunda solidão, como a solidão só pode ser nutrida por um profundo compartilhar.
Pois chega o derradeiro momento em que temos que compartilhar dessa água contid em nossa profundidade, senão nada faz sentido.
Para isso, muitos momentos de confronto "seco" consigo mesmo podem ser necessários.

Acima de tudo creio que o que nos salva é um bom coração e que o temos sempre a disposição seja qual for a sombra que nos acompanhe. Muitas vezes precisamos chegar ao extremo para perceber coisas importantes, outras percebemos observando os erros alheios, lendo um livro, assistindo um filme, mas hoje penso que os aprendizados mais significativos são fruto de vivência direta e que isso realmente transforma nossa visão. E com um coração aberto podemos experimentar o que tem um sentido mais profundo para a nossa vida.

Talvez isso nos desconcerte e fascine no filme: esse cara experimentou! Esse cara incomoda a partir disso e na mesma intensidade sua lógica anárquica nos atrai. O que confronta nossas "zonas de conforto" nos desafia, o que vai contra a "coerência" de algo que não acreditamos mesmo que queiramos sustentar, nos perturba. Porque seguimos em busca daquilo que não tem coerência alguma em forma. Buscamos mesmo é a incoerência daquilo que tem em nós um sentido mais profundo, mesmo que pareça loucura aos olhos do mundo.
Pois no fundo, queremos muito mais do que apenas aventuras para contar, coisas para mostrar, aparências que nos dêem um alto grau de aceitação. Somos ousados por natureza, uma ousadia tão grandiosa que não nos aquietamos até sentirmos que fomos além de nós mesmos.

"A felicidade só é verdadeira quando compartilhada."

Por último, falo sobre a Natureza, impossível subestimar sua beleza e força. Os orientais têm essa sabedoria muito mais integrada do que nós e quem já se atirou de alguma forma ao contato profundo com ela pode compreender do que falo. A Natureza é um mestre muito simples e muito poderoso, destrói qualquer ilusão de superioridade que se tenha. Sábios são os que se submetem com humildade, que respeitam os próprios limites diante de Sua grandeza e sabem reverenciar Sua força. Tolos os que pensam que têm todo controle dentro de uma floresta, um oceano ou céu. Estar de espírito aberto, presente e conectado com alguma forma de Natureza é um êxtase sem palavras, olhar nos olhos de um animal selvagem, uma experiência muito emocionante. Como se fosse um espelho reluzente que nos refletisse por dentro, do avesso.

Por acreditar que a natureza humana seja algo tão precioso e amplo, esse filme mexeu comigo.
Talvez seja essa a mesma razão que nos faça negá-la, temê-la e que nos fascine tanto...



"Há um tal prazer nos bosques inexplorados,
Há uma tal beleza na solitária praia,
Há uma sociedade que ninguém invade
Perto do mar profundo e da música do seu bramir
Não que ame menos o homem
Mas amo mais a Natureza"

Lord Byron




domingo, 13 de julho de 2008

Long Nights



"Have no fear
For when I'm alone
I'll be better off
Than I was before

I've got this life
I'll be around to grow
Who I was before
I cannot recall

Long nights allow
Me to feel I'm falling
I am falling

Safely to the ground

I'll take this soul
That's inside me now
Like a brand new friend
I'll forever know

I've got this life
And the will to show
I will always be
Better than before

Long nights allow
Me to feel I'm falling
I am falling

The lights go out
Let me feel I'm falling
I am falling

Safely to the ground"

Long nights - Eddie Vedder
Into the wild soundtrack



Dedico a todos os desconhecidos especiais com quem estive hoje.
Espero vê-los em breve novamente.





P.S: Assistam "Na natureza selvagem". Um filme sobre extremos, cura, coragem, liberdade e... o poder da natureza.
Trilha sonora maravilhosa, peguei a estrada hoje só pra escutá-la com a alma e o coração.

segunda-feira, 7 de julho de 2008

Flores de cerejeira



"Olho para as flores,
Olho e as flores espalham-se
Olho e as flores...

Crescem as flores
Crescem e depois caem,
Caem e depois..."

Flores de cerejeira, Onitsura (1660-1738)





P.S: Créditos a palestra e ao livro "Os japoneses" da antropóloga Célia Sakurai, que fez com que eu planasse um pouco por essas terras. Fiquei fascinada.

sexta-feira, 4 de julho de 2008

Se você se apaixonar por mim




Se você se apaixonar por mim...

Tenha paciência com minhas confusões
Elas são apenas um pedido pra que eu me encontre
Muitas vezes um atalho sinuoso pra chegar em você

Entenda minha menina, coloque-a no colo na hora da tristeza
E não dê muita bola na hora da birra
Me faça um cafuné

Rasgue resistência por resistência e vá se deliciando com elas
Ao invés de questioná-las
Depois me renda e me tenha como se tem uma mulher

Não exija muito, não cobre, não dê muita vazão a posse e ao ciúme
Considere a imaturidade da minha malícia
e que muito do que parece definitivamente não é

Se você se apaixonar por mim

Saiba que em muitos momentos aprecio a solidão
E isso nada tem a ver com declinar sua adorável companhia

Movimente-se
Nem muito longe que não possa vê-lo
Nem tão perto que distorça
Esteja ao lado e nunca será muito nem pouco

Abra os braços
Aperte bem forte a minha mão
Segure na minha cintura

Não me analise tanto
Não me interprete a todo momento
Olhe além e contemple os sinais
Respire o perfume do mistério

Não tenha medo de abrir a porta
Ela não está trancada e tampouco precisa de força
Abra devagar, entre sutilmente e sinta todas as possibilidades
que existem nesse universo do eu, você , um mundo inteiro e nós


Se você se apaixonar por mim,
que seja doce esse fim





P.S: Totalmente inspirado numa proposta da revista Marie Claire de junho. Foram convidados alguns homens para escrever uma carta fictícia a uma mulher apaixonada dizendo o que fazer ou não fazer para não estragar o romance. O título é "Se vc está apaixonada por mim, nunca..."
Como não acredito em nunca, mudei um pouco isso.
A carta do Nando Reis é a melhor, publico logo mais.

quarta-feira, 18 de junho de 2008

Abstrato



Abstrações vividas, como isso me faz sentido! Me permitir viver o sutil de uma nova maneira, com leveza, sem aquela expectativa toda, sem maiores preocupações, sem ansiedade e (tanta) culpa. Esqueci por hora o que é ter (tanto) controle, mal me lembro quem eu era, nem sei quem eu sou e quero ser surpreendida ao saber quem serei, mas não de forma concluída e estanque, quem serei nas próximas oportunidades de lidar com o novo e desconhecido.

Principalmente o novo e desconhecido jeito de olhar o mundo.

Talvez precisemos desses "gaps" para que as coisas façam sentido, germinem, floresçam. Precisei abstrair muito para estar de carne, osso e alma na realidade.
Esses dias não tive medo de assumir que sou "absolute beginner" (como na linda canção do Bowie) em muitas, muitas coisas. Não tive (tanto) orgulho em aprender com quem sabe mais, ou que ao menos já traçou aquele caminho. Não me desesperei diante de grandes desafios, não me preocupei (muito). Não julguei (tanto) pessoas que têm comportamentos que eu não entendo. Estive mais com elas em seus ambientes me permitindo entrar naquelas realidades, tateando os cantinhos daqueles mundos.
Hoje, não estou ansiosa em pensar que passados esses momentos perfeitos, talvez alguma coisa estranha vá acontecer. Não estou presa aos momentos tão gostosos que passei querendo revivê-los como um filme no DVD. Tudo isso logo virará bruma, mas hoje eu tenho mais esperança no brilho das coisas.

Hoje sorrio porque a esperança são momentos vividos.

Estou feliz pelos olhares que troquei, de verdade, bem no fundo da íris.
Estou feliz pelos passos que dei bem devagar, sem me cobrar o tamanho e velocidade desses passos, de mãos dadas com outras pessoas algumas vezes, mas meus passos.
Estou feliz porque vi o mar, pus os pés na água e o céu tava azul como a roupa de Iemanjá.
Estou feliz porque sonhos podem se realizar, talvez porque já sejam reais em sua semente.
Estou feliz porque respirei (sem pensar) antes de impulsos conhecidos.
Estou feliz porque peguei a estrada sozinha ouvindo todas as músicas que mais adoro bem alto.
Estou feliz porque vejo minha vida finalmente caminhar com mais base.
Estou feliz porque eu não sou mais a mesma e ainda assim, sou feliz porque ainda sou a mesma criança daquela foto na mesa da sala.

Estou feliz porque vi muita gente feliz perto de mim.

Cada coisa a seu tempo tem seu tempo



"Cada coisa a seu tempo tem seu tempo.
Não florescem no inverno os arvoredos,
Nem pela primavera
Têm branco frio os campos.

A noite, que entra, não pertence, Lídia,
O mesmo ardor que o dia nos pedia.
Com mais sossego amemos
A nossa incerta vida.

A lareira, cansados não da obra
Mas porque a hora é a hora dos cansaços,
Não puxemos a voz
Acima de um segredo,

E casuais, interrompidas, sejam
Nossas palavras de reminiscência
(Não para mais nos serve
A negra ida do sol).

Pouco a pouco o passado recordemos
E as histórias contadas no passado
Agora duas vezes
Histórias, que nos falem

Das flores que na nossa infância ida
Com outra consciência nós colhíamos
E sob uma outra espécie
De olhar lançado ao mundo.

E assim, Lídia, a lareira, como estando,
Deuses lares, ali na eternidade,
Como quem compõe roupas
O outrora compúnhamos

Nesse desassossego que o descanso
Nos traz as vidas quando só pensamos
Naquilo que já fomos,
E há só noite lá fora."

Fernando Pessoa


Dedico a tudo de surpreendente que tenho vivido e cai sobre mim como avalanche. Adoro surpresas e tenho apreciado todas, especialmente as que são como um soco no estômango.
Um brinde a tudo que me é inesperado, me arrebata, me enche o peito, me conforta, me alegra, me faz chorar, sentir saudades, dói, desperta a angústia, o vazio, a tudo que me tira o chão.
Se viver de verdade é viver qualquer sentimento e estado de espírito intensamente, nunca fui tão viva e assim, nunca estive tão próxima de morrer.

Dedico ao Hugo pela discussão. Por discutir comigo tão honestamente sem deixar de olhar nos olhos.(Eu tão resistente e durona não lembrava o valor disso)
Dedico a Bete, pela caminhada na Rua Augusta, com vento gelado na cara, conversando sobre momentos felizes com a sensação de que não estávamos lá. Adoro essa sensação de não estar, alheia ao externo quando a presença é maior. (Eu tão dramática esqueci o sabor dessa simplicidade)
Dedico a Quitéria, pela lealdade.(Eu tão desesperada, havia esquecido que pessoas podem ser leais assim)
Dedico a Maria Cândida pela atitude de carinho numa solicitação tão fútil e pelo arrastão no compartilhar de um sonho.(Isso me recordou como é forte uma amizade fraterna)

Dedico muito emocionada a todos os queridos amigos de faculdade que num encontro me fizeram sentir o que é estar em casa, ainda carrego esse sentimento comigo. Nunca esquecerei a cena em que na minha chegada (super atrasada) vocês todos se levantaram das cadeiras pra me cumprimentar com um abraço forte e sorriso e logo se puseram a arrumar as mesas para que ficasse mais fácil um conversar com o outro.
Coisa boa sentir tamanho conforto de alma, receber carinho espontâneo e verdadeiro, entremeado com piadas e brincadeiras a meu respeito!
Foi lindo recordar de onde vim e a que pertenço. Lindo ver que somos iguaizinhos e como nosssas vidas caminharam. Lindo olhar vocês. (E eu que tinha deixado de lembrar o valor de estar em casa, de ter por perto quem te conhece e te quer bem mesmo com tão pouca convivência).

Meu enorme afeto a todos vocês.

P.S: P.... como somos pessoas de sorte!

domingo, 8 de junho de 2008

A moda antiga ( or the oldfashioned girl in me)


"-Poucos são seguros o bastante para se apaixonarem sem o encorajamento alheio. Bingley a ama mas não pode passar disso se ela não o ajudar.
-Ela só é tímida. Se ele não percebe seu olhar, é um tolo.
-Somos todos tolos quando apaixonados. Ele não conhece seu caráter como nós. Ela deve ser rápida e fisgá-lo logo. Teremos muito tempo para conhecê-lo depois." Lizzie e Charlote

"Uma moça gosta de sofrer por amor, vez por outra. Dá a ela algo em que pensar e uma espécie de distinção das amigas." Mr. Benning

"Serei feliz com ele comos seria com qualquer outro. Nem todos podem se dar ao luxo de serem românticos. Ele me oferece uma casa confortável e proteção. Tenho 27 anos, sem perspectivas e sou um peso para nossa família." Charlote

Orgulho e Preconceito, um filme muito gostoso de ver. Me senti no século XVIII, deu uma saudade de alguma coisa, talvez essa inocência, essa leveza que tem a história dessa família e dessas mulheres. A simplicidade humana nessas relações, sejam familiares, fraternais, amorosas. A história é extremamente romântica, mas como pode ser nosso primeiro amor, senão assim romântico? Penso ser um privilégio ter como ritual de passagem para o mundo amoroso uma relação romântica. Depois a gente dá um upgrade, mas pra começar, ah, é muito bom! ;-)

Reflito sobre o orgulho, algo que conheço muito bem, no filme fica claro o que ele pode fazer para complicar tudo que é muito simples de uma forma quase didática. Você sabe que perdeu a razão, você reconhece outro modo de ver mas não consegue dar o passo, a visão fica turva e o peito angustiado, parece que vai explodir. O orgulho normalmente cede quando a dor ou o amor são muito intensos pra se segurar. Essas cenas de despir-se do orgulho, em que somos arrebatados e nos entregamos me arrepiam com a sua beleza. Porque, hoje em dia acho uma bênção o benefíco de mudar de idéia, reconhecer e ceder. E pra uma pessoa que sente orgulho muitas vezes como eu (rs) o significado dessa ruptura é imenso, porque nesse momento acredito que ocorre uma espécie de transcendência e não de liberação pura e simples de repressões.

Há muitas artimanhas para alimentar o orgulho com a razão, principalmente através de preconceitos. Tomar o todo pela parte, generalizar, fazer pré julgamentos com pouca base, seja para mais, numa idealização, como para menos, num desprezo. Tudo fruto da visão que gera essas construções que fazemos. E se tudo isso é impermanente é inútil se fixar, mas a maioria das vezes nos damos conta quando o bonde já passou...

Reflito sobre a gentileza. Basta uma pequena delicadeza, mesmo ao som de verdades firmes e duras, pra quebrar o gelo do orgulho, do preconceito e de tantos outros venenos. E me dá saudades desse tempo em que as gentilezas eram tão cultivadas. Muitos acham formalidade demais, frescura, eu penso que tudo fazia parte da condução, dos sinais para o amor. Hoje em dia não vemos claramente esses sinais, muito se banalizou e apesar de nos pensarmos mais livres vejo uma nova prisão com uma embalagem "moderna" e cremos, mais agradável. Sinto como se não soubéssemos mais que papéis temos numa conquista, num flerte, num relacionamento afetivo. Por exemplo, o significado de um baile, da dança naquela época. Uma rara oportunidade do toque, da proximidade. A valorização do olhar, a poesia do andar da mulher, a cortesia dos gestos do homem. Seria tudo isso tão antigo e "careta" assim? Ou o que a gente evita a todo momento por orgulho e preconceito, porque somos modernos e os tempos são outros? (mas lá no fundo é o que mais desejamos?)
Me ocorreu essa pergunta: o que a mulher independente em mim quer, após experiências intensas em tantos papéis? Mulher rebelde (ai isso as vezes cansa! rs), dona do próprio nariz, namorada meiga, indomável, menininha. E de repende vejo na personagem Lizzie, como dá pra costurar um pouco de cada qualidade feminina sem perder a graça. Claro que eram outros tempos, mas será que isso não é um pouco universal? Faz parte da nossa natureza feminina e o que realmente queremos? E com os homens não seria o mesmo?

Esse post não é pelo dia dos namorados, mas pode ser para os namorados também. Pra mim, um dia de cultivar gentileza e cortesia. De homens serem homens, sem medo de sua sensibilidade e mulheres serem mulheres, sem medo de sua força. Deixar o yang e o yin dançarem, é isso que eu desejo aos apaixonados, permitam suas energias dançarem, ao menos por hoje.

Ah (suspiro) como seria bom se pudéssemos ser apenas mulheres e homens...



P.S: Essa foto é uma homenagem ao casal que conheci há alguns anos. Estava andando num parque lindo em Queenstown, Nova Zelândia e tinha acabado uma apresentação do musical Hair (por isso a faixa). Pedi a ele que tirasse uma foto minha num jardim e depois pedi para fotografá-los. Ele a abraçou espontaneamente e deu um beijo forte nela. Achei maravilhoso e nunca mais me esqueci dessa cena. Depois eles me disseram que aquela viagem era pelos trinta e poucos anos juntos, eles eram americanos.

quinta-feira, 5 de junho de 2008

Uma boa e velha poesia



"Sais pelo sonho como de um casulo e voas.


Com tal leveza podes percorrer o mapa
 e ir e vir ao acaso,
ar e nome: 
como as borboletas.


Não és tu, mas a tua memória com asas.


E abrem-se os palácios, 
e percorres os tesouros guardados,

e és sorriso e silêncio
 e já nem precisas mais de asas.


Na noite encontras o dia, claro e durável.

Voas sobre séculos e horóscopos.


Ouves dizer que te amam

como ninguém jamais poderia confessar.


Não tens idade nem tribo, 
nem rosto, nem profissão.

Podes fazer o que quiseres com palavras, harpas, almas.


E quando voltas a teu casulo 
já não tens nenhum medo da morte.

E em teu pensamento há néctar e pólen."



Cecília Meireles

Essa poesia já foi publicada aqui, e é uma das mais lindas da Cecília na minha opinião. Hoje, mais uma vez ela cai como uma luva.
Tenho vivido o conflito de ver meus sonhos descortinados pelo real, e ao mesmo tempo tentado sonhar novos sonhos diante da crua realidade que se apresenta a cada piscar de olhos. Consegui relaxar e me sentir leve como uma pluma, e nessas horas presencio mágicas e mágicas acontecerem. Aí, num escorregão, os fatos pesam, e lá vou eu em busca do segredo que deu certo semana passada, ontem, uma vez na vida, com aquela situação ou aquele alguém.
Girassol caçando borboletas.
Mas esses instantes divinos se dissolvem como algodão doce na boca quando saio de algum tipo de frequência coletiva e sintonizo com algo mais elevado. Então, no silêncio, tento perceber mais alguma coisa, qual o movimento que está acontecendo mas muitas vezes a angústia é maior. Angústia de um vazio que não se preenche. É o vazio do nascer, muito provavelmente. Vazio de uma casa com sol abundante vindo das janelas.
Não sou eu, mas minha memória. Minha memória criando alguém e isso tudo desmoronando dia a dia. E uma vez esvaziada, sou tomada por uma sensação super heróica de poder voar. Tenho tido nostalgias deliciosas de peripércias por outras bandas, e estar nesse país e nesse bairro tem, com frequência me dado claustrofobia.
Sinto uma leveza incrível para abraçar o mundo, como sinto o peso das limitações automáticas, de crenças que não me deixam. Sinto uma capacidade imensa de amar, como sinto esse amor preso no peito. Sinto que não tenho identidade, como me identifico muito com alguns lugares, pessoas, paisagens, cheiros aos quais me fixo. Quero ficar quieta e o mundo me chama. Estou cada vez mais curiosa pela vida, boca salivando, olho vidrado. Braços abertos pro vento e mãos que fuçam a lama. Meu prazer vem cada vez mais de experimentar.

Meu peito hoje é uma gaiola onde se debatem muitos passarinhos. Quero que eles saiam voando de uma vez, e isso as veses me faz prendê-los ainda mais, afinal como vai ser com esse espaço todo disponível?

Espero ansiosamente na ante-sala, enquanto adio esse parto...

quinta-feira, 29 de maio de 2008

Sobre perdas


"Ninguém o pode aconselhar ou ajudar - ninguém. Não há senão um caminho. Procure entrar em si mesmo. Investigue o motivo que o manda escrever; examine se estende suas raízes pelos recantos mais profundos de sua alma.(...) Procure soerguer as sensações submersas desse longíquo passado: sua personalidade há de reforçar-se, sua solidão há de alargar-se e transformar-se numa habitação entre lusco e fusco diante da qual o ruído dos outros passa longe, sem nela penetrar.(...) Aceite seu destino e carregue-o com seu peso e sua grandeza, sem nunca se preocupar com recompensa que possa vir de fora. O criador, com efeito deve ser um mundo para si mesmo e encontrar tudo em si e nessa natureza a que se aliou." Cartas a um jovem poeta - Rainer Maria Rilke

Aconteceu. Eu nunca poderia imaginar que de uma hora pra outra isso aconteceria. Sim, ele estava dando pequenos sinais de fraqueza, lentidão. Eu reclamava, desistia, mas não prestei a menor atenção ao que isso podia significar. Meu computador morreu. O HD pifou. Perdi todos os meus documentos e um monte de coisas com muita e nenhuma importância. Tudo foi embora, muitos e muitos rastros de mim. Todas as fotos dos meus trabalhos se foram, todos os registros do que eu fui capaz de criar, sumiram.
Isso me pareceu a cereja do bolo no contexto da minha vida, atualmente. E surpreendentemente, eu peguei a cerejinha e mastiguei bem devagar. Parei tudo. Sentei e chorei. Respirei. Levantei, tomei banho, me arrumei e fui pruma reunião de trabalho sem material algum. Saí de lá e fui pra assistência técnica onde foi constatado o dano desastroso. Deixei o computador, voltei pra casa e observei um tempão o espaço que ele ocupava na mesa.
Por que escrevo sobre isso?
Esse episódio do computador foi só a versão literal e concreta do meu processo atual. Não importa o quão poderoso, eficiente algo ou alguém seja. Sempre é preciso atenção. Atenção e não controle, porque tudo está sujeito a "pifar" de uma hora pra outra.
Tenho tido muito foco, mas pouca atenção, a ponto de perder o entorno. Como uma cabra persistente subindo a montanha com a cabeça enfiada no peito, olhando o chão. Outras vezes sou como um cavalo galopando em campo aberto, sem atentar aos detalhes e sem muitos limites. Na maioria, um touro sangrando e mesmo assim batendo cabeça numa tourada até seu derradeiro fim.
Depois que retomei o prumo, fiquei com inveja da máquina, talvez ela não tenha pifado. Talvez ela tenha dado um salto para outra consciência! (rio até chorar com essa colocação maluca). Queria que meu HD tivesse pifado de vez pra colocar outro no lugar! Sem controle algum, tudo apagado, sem rastros! Que sensação de liberdade!
Ver meu computador funcionar de novo com sistema operacional e programas mais modernos, parece mais uma loucura mas me fez sorrir. Será que pode ser assim comigo também pane após pane? Ficar vazia de tudo, cheia de espaço no HD?
Conversei comigo mesma na cama a noite toda, triste e sem sono. Acordei e um dia surpreendente aconteceu, novas alternativas e constatações. Uma delas é que quanto mais maduro estamos, mais aceitamos ser desafiados pela vida. Quanto mais nos entregamos a imaturidade, mais precisamos de explicações. Outra é que preciso atentar aos limites mais uma vez. Limite das minhas fraquezas e poderes. Limite do que posso oferecer e quero receber. Chega de querer acertar as respostas sempre, chega de querer passar mensagens corretas. Limites pra mim, limites para o outro. Até onde vai, onde pára e onde não há realmente limites. Parece paradoxal a idéia de liberdade, mas talvez contemplar e respeitar limites, nos dê um pouco mais de autonomia e nos torne hábeis para uma verdadeira liberdade.

Quando achei que tudo tava em certa ordem e controle, perdi o chão. Quando achei que tava perdida, tava tudo certo. É bom não ter nada de vez em quando. É bom aprender a perder e reconhecer quando estamos por baixo. E é muito bom, ter um punhado de gente boa por perto nessas horas extremamente solitárias de perdas e dúvidas. E é gratificante saber ser sozinha mesmo com muita gente ao redor.
Pra quem quiser ir mais a fundo no tema, assista "Piaf". Lindo filme, linda história. Edith Piaf viveu perda após perda na carne e mesmo assim manteve um olhar lindo de menina e com seu corpo franzino e frágil expôs em forma de arte todo o amor e intensidade que tinha dentro do peito. Transmutação em forma de canto. E não é assim com os grandes artistas?

"Non, rien de rien (Não, absolutamente nada)
Non, je ne regrette rien (Não, eu não lamento nada)
Ni le bien qu'on m'a fait (Nem o bem que me fizeram)
Ni le mal (Nem o mal)
Tout ça m'est bien égal (Isso tudo me é indiferente)

Avec mes souvenirs (Com minhas lembranças)
J'ai allumé le feu (Acendi o fogo)
Mes chagrins, me plaisirs (Minhas mágoas, meus prazeres)
Je n'ai plus besoin d'eux (Não preciso mais deles)
Balayés les amours (Varridos meus amores)
Avec leur trémolo (Com todos os seus tremores)
Balayés pour toujours (Varridos para sempre)

Je repars `a zéro (Vou recomeçar do zero)"


P.S: Dedicado ao Herbert, Massao, Erica e Mirene.