domingo, 11 de maio de 2008

Crua


Pausa. 11:58 do dia 11/05/08. Aguardando o almoço para o dia das mães, preciso escrever.
Semana intensa. Pouco me lembro do que fiz há uma semana exata e isso tem acontecido com frequência. Me lembro da palestra do Lama Padma Samten quarta passada, de alguns trabalhos e de um mini retiro no meio.
Me cobrei essa semana toda por ser uma péssima praticante budista. No retiro meditei bem meia boca pois algumas dores e distrações ainda me vencem. Me inebrio com as palavras do Lama, fico emocinonada, me sinto acolhida e saio com o peito cheio de bons sentimentos que imagino que agora vai ser mais fácil colocar em prática. Como tudo que tenho escrito aqui nesse blog nos últimos tempos, um monte de insights, fichas que caem, lampejos de lucidez e a esperança de que tudo seja melhor dali pra frente. Lembrei hoje de um amigo que tirou uma onda com meu blog, dizendo que era tudo fofo, a garota que gosta de escrever sobre insights. Achei irônico na hora e agora acho que vejo outras coisas.

Esse post trata de alguma coisa como as dúvidas sobre o que tenho escrito e feito na minha vida. Se tenho sido mesmo verdadeira. Depois de glórias e vazios, resolvi parar pra pensar em como tenho interpretado meus papéis no mundo pra sair das "minhas questões" e pensar em como sou interagindo com o outro. Percebi que deixo a desejar, ao menos na minha autoavaliação, ando muito autocentrada.

Escrevo porque há um hiato grande entre o que tenho consciência e o que faço. Porque sou ingênua quando queria ser esperta e esperta demais quando deveria relaxar. Porque me comparo muito com referências externas, me cobro, me puno. Porque quero mais e mais, porque me agarro ao que me extasia querendo congelar aquele momento. Porque tenho inveja. Porque não sou praticante nenhuma, sou uma visitante que vai e vem, tenho preguiça de meditar, não tenho conseguido parar nem para chorar. Tenho sentido muita raiva de mim mesma porque imagino que a maioria é bem mais resolvida e forte do que eu. Porque o Lama sorriu e disse que foi muito bom me ver e eu tenho orgulho até de fazer perguntas pra ele! Porque em meio a tantos semideuses, sou uma lástima. E chego a sentir falta de quando eu também era uma semideusa, mesmo sabendo toda cartilha. E não adianta lembrar dos ensinamentos, eu não me convenço que consiga tais lucidez e compaixão, hoje.
Escrevo porque sinto um vazio algumas vezes, e ao acabar de escrever aqui essa sensação vai prosseguir pq tenho que almoçar com a família, trabalhar mais um pouco, talvez sair, correr atrás de pagar muitas contas, ficar cansada de novo e não conseguir parar a mente, a não ser para brincar dois minutos com o gato e dormir.
Quando o Lama falou em praticar em meio a natureza, numa montanha alta e outras paisagens agradáveis os olhos brilharam. Falou em viajar, ganhar o mundo, meu coração bate forte. Mas pensar em beneficiar os outros seres, não sei bem fazer isso. Pensar em parar pra simplesmente respirar, só quando tudo tá lindo ou no Centro Budista.
Enfim, tanto caminho tem pela frente, e por esses dias tem pesado. Horas por estar por baixo, horas por estar por cima. Nessa roda toda, vulnerável as energias que me puxam, me sinto um joão bobo. Sujeita a tantas chuvas e trovoadas quando tudo o que preciso é parar. Respirar, praticar, contemplar. Há tantas ferramentas e ainda assim me sinto desamparada.

Interrompo o raciocínio.

Será que sou uma farsa?


P.S: Dedicado aos que vêem e lidam com minhas máscaras e "sombras" e ainda assim, sem eu entender porquê permanecem.

2 comentários:

kellybounce disse...

Oi, Girassol.

Não freqüento o seu blog a muito tempo, mas acho muito difícil você ser uma farsa. Você é humana, repleta desses vário 'eus' que tornam os seus textos lindíssimos.
Nada de 'fofo' nesses textos - 'fofos' são esses homens que não crescem nunca e admiram as mulheres como se eles ainda fossem crianças... Eles são fofos... bom pra gente, né?

E o que seria dos grandes mestres, e como seria sem graça a vida se não fossem esses 'hiatos' e 'abismos' que encerramos em nós mesmos? Onde construíriamos pontes? Que obtáculos teríamos pra transpor?

Auto-centrada é bom, meu bem, assim como o egocentrismo nem sempre é ruim. Correr sem ter tempo pra olhar para os seus abismos, isso e ruim. Não ter tempo pra admirar a profundidade, medir a altura do tombo, observar a escuridão lá do fundo, isso também é ruim.

E, no final das contas, ferramentas nunca ampararam ninguém; o peso que a gente carrega nunca vai embora, a gente só aprende a tirar das costas e carregar de forma mais confortável; e se seus textos não são prova concreta de que você sabe beneficar outros, quem disse que uma boa indicação de um filme não é beneficiar o próximo, enriquecer a vida de um outro (baixei Dolls e não me arrependi). Se ainda estiver na dúvida, pergunte aos seus leitores mais fiéis e àqueles amigos a quem você dedica suas palavras (e seu coração)... Nem sempre o mais necessitado é aquele que passa fome...

Espero que quando você conseguir transpor esse 'hiato', você encontre outra razão pra continuar escrevendo...

Alê Marcuzzi disse...

Olá Kelly

O melhor no seu comentário é a troca. Você se dispor dessa forma tão envolvida a trocar pontos de vista. Fiquei muito feliz com o que li.
Pode deixar que tudo segue, abismos e hiatos mas pontes vão sendo construidas, e se vc assistiu atentamente Dolls sabe o significado disso.
Essas crises são boas pra no mínimo dar uma chacoalhada na alma, aí depois a gente fica até mais aberto pra beleza da vida, como vc pode ver no post seguinte. (mas não garanto o que venha pela frente rs)
De post em post vai ficando um pedacinho do rastro da minha história e se isso beneficia alguém mesmo quando não é a intenção inicial ou algo que eu ainda sinta não saber fazer muito bem, putz, isso é mais um motivo e tanto pra continuar a me expor, desconstruir, desnudar aqui nesse espaço virtual.

obrigada

abraço

Girassol